Esta é a história do meu gato. Segundo a cronologia dos seus antecedentes desde a primeira à última notícia que dele tive.
Pequeno na sua juventude, nascera num meio muito antiquado, muito para alem de Uma Pequena Aldeia, nos confins do extremo Norte da sociedade que a envolvia. Pouco ou nada sei dos seus antigos donos e do poder que tinham sobre ele, à excepção de que tinham um filho semi-estropiado que costumava brincar com ele, infelizmente, para o pobre gato, pegarem-lhe pelas patas traseiras e mandarem-no pelo ar para rodopiar o mais que pudesse, puxarem-lhe a cauda como se fosse um mata-moscas e cortarem-lhe o bigode para o colar em bonecos depelados não era brincadeira nenhuma!
Assim sofria e sofreu durante as primeiras semanas de sua vida. Até que finalmente, para bem do seu destino e despejo da sua agonia, a minha família o acolheu e levou-o para Uma Pequena Aldeia, também conhecida como a Cidade Dos Rafeiros. Ah… ainda me lembro da primeira vez que lhe pus o olhar: parecia uma bola de neve, completamente branco, da ponta da cauda até ao pequeno focinho por debaixo dos seus lindos olhos tortos… – “Quê?! Então mas, mas que raio… se tinha os olhos tortos como é que podiam ser lindos?” – Oh, não sejas insensível! Ele era só uma cria de gato, é claro que depois, quando cresceu tornou-se nojento, mas enfim, isso era só parte do seu trauma, ou traumas.
Bem como eu dizia, tinha uns lindos olhos tortos. Infelizmente nunca cheguei a saber se o seu estrabismo se devia aos maus-tratos que sofrera no lar do menino semi-estropiado, ou se era simplesmente um mero sinal de nascença. Lembro-me também das suas pequenas patas, e dos seus pequenos dentes, e do seu doce miar: miau, miihau, miiiaauuuu haauuu… – “Quê?! que é isso? Está tudo bem?” – Ãh, o quê? Ah, sim, está tudo bem, estava só a matar saudades do seu querido e suave miar e aquele ronronar: grrrr, grrrhhrrrg, grwrrhgrr… – “Hoy, então? Controla-te!” – Cof cof! Sim claro, desculpa. Deixei-me levar pelas emoções. Agora silencia-te e ouve!
Bom! Chegou então o momento em que tínhamos de lhe dar um nome pelo qual o chamar. Reunimos então uma assembleia, que demoraria o tempo necessário, e depois de muitas e longas discussões, sete minutos depois chegou-se a nenhum consenso, o chefe da família insistia por um nome, e tantos outros por outros nomes, mas o poder estava nas palavras do chefe da casa, que acabou por nomeá-lo de Kitty… – “Quê?! Então mas… Kitty é um nome feminino, como é que pode ser um gato?” – Sim, eu sei, tens de ter calma e ouvir a história até ao fim! Enfim, de qualquer maneira isso é só parte do seu trauma, ou traumas.
Bem como eu dizia, Kitty acabou, por ser o seu nome. Desde sempre, fora um gato muito estranho: nunca falava com ninguém, e desinteressava-se de tudo o que um gato gosta: desde brincar com novelos, seguir luzes tremeluzentes, e até mesmo de lamber as suas próprias partes, o que lhe trazia a vantagem da deficiência de bolas de pêlo, e orgulhava-se disso, e por muito que os outros gatos o gozassem, ele sempre dizia-se o mais socializado entre toda a raça felina… – “Quê?! Então mas… porque lhe gozavam os outros gatos se ele era o mais socializado?” – Humpf! Eles eram gatos, não sabem fazer distinção do que é social ou não, para eles quem quer que fosse social seria uma espécie qualquer de aberração! Mas enfim, isso era só parte do seu trauma, ou traumas. – “Eu é que não gostava de ser gato!” – Vá, agora já chega, deixa-me contar a história do meu gato!
Bem, tal como eu ia dizendo, Kitty sabia, após uma elaborada mutação genética que sofrera aquando posto um micro-ondas, durante escassos segundo, mas que no entanto, os suficientes para lhe modificarem ao ponde de se tornar o que outrora não fora mas que agora era, e assim sabia que era o mais social ou até mesmo o único, mas ninguém o compreendia, e isso revoltava-o, e involuntariamente ajuntou a sua revolta à revolta que tinha pelos seus traumas anteriores, e lentamente ia construindo uma personalidade terrorífica. À medida que ia crescendo, mais repugnante se tornava, já nem os seus olhos eram bonitos, muito longe disso até... – “Ah, assim sim!” – Xiu! Do seu ódio, criara uma estria de uma cor amarelo suave quase invisível que lhe percorria a cauda de ponta a ponta, maculando assim a sua virgem e branca penugem, e o seu miar e roncar tornaram-se em terríveis gemidos, interpretados por uma boca cheia de grandes e afiadas presas.
Agora, seguro da sua estatura, a sua enorme maldade, outrora reprimida, explodira num ataque de raiva e ódio. Espetava as garras de cada vez que alguém se aproximava dele, e ai de quem se lhe chegasse: as suas garras pareciam ter desenvolvido um veneno que inchava a carne que cortava!
Agora, forte e adulto, começou a sair de casa, e meteu-se em todas as lutas que conseguia encontrar. De noite ouviam-se os gemidos dos seus adversários enquanto sofriam debaixo dos dentes e garras de Kitty. Muito rapidamente, o gato traumatizado, foi ganhando… ou melhor roubando o respeito a todos os felinos da zona!
Cada vez menos aparecia em casa, cada vez mais tempo passa nas ruas. Os seus donos (onde eu incluído), sempre que ele voltava a casa para um breve repouso depois de uma luta entre gangs ou quando simplesmente vinha em busca de comida fácil, tentavam – ou tentávamos - resgatá-lo dos seus problemas psicológicos e da sua profunda tristeza, mas sempre sem sucesso, ao que Kitty sempre dizia:
- Não! Nunca! Já mais! – Gritava, e quando gritava, fortes e medonhas trovoadas de brilhantes relâmpagos, estrondosos trovões e pesadas chuvas o acompanhava na sua raiva, à medida que o céu se escurecia à sua volta.
– Esses são os combustíveis que alimentam a voracidade do meu desejo pela vingança! Juntos, eu e os meus traumas iremos governar toda… mas toda, toda a Rua Aqui Do Lado!
E assim se retirava e desaparecia durante vários dias. E cada vez mais, menos vezes aparecia.
Com o tempo, Kitty tornara-se chefe da Máfia Felina… – “Quê?! Então mas… Quê?! A Máfia Felina não existe! Isso é uma grande mentira, pah!” – Hey, a história é minha, eu é que sei como é que a conto, agora não faças barulho que a história já está quase a acabar!
Bom! Como eu dizia, Kitty tornara-se chefe da Máfia Felina e até os cães o respeitavam. Uma faixa negra que lhe percorria as costas, ao longo da espinha, denunciava o seu estatuto mais que elevado e a chefia que levava a cabo. E o seu desejo mais que desejado fora finalmente realizado, enquanto que debaixo das suas garras (literalmente) dominava toda a Rua Aqui Do Lado!
Posteriormente, vim a saber que a faixa negra que o percorria na coluna e que o denominava chefe da Máfia Felina, tinha sido pintada pelo óleo derramado pelos carros onde Kitty usava como covil e abrigo para o seu sono!
E é esta a história de Kitty, o Gato Rafeiro! E nunca mais o vi, até que finalmente, agora, apenas guardo estas memórias dele… – “Quê?! Então mas…” – Mau Maria! Agora já chega, rapazolas! Ou te calas ou eu… – “Pronto, pronto, acaba lá a tua história!”
Enfim como eu dizia… hum… como eu dizia… oh, agora já acabei a história, seu canalha, estragaste o meu grande final… bolas!
Os acontecimentos desta história são baseados em factos reais e assistidos pelo próprio narrador (apenas cerca de 01% desta história são ficção)!
Sr Rodriglomeu
19/Nov/2008 15:04

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